Eles chegam de todas as maneiras. Geralmente carregados no colo, nas costas, dois carregando, apoiados, em muletas... Gente do campo e da cidade. De todas as idades. Com todos os tipos de problemas. Poliomelite, paralisia cerebral, acidente de moto, doenças degenerativas, consequências da guerra.
Ele chegou nos braços da mãe. Era intervalo do almoço e eles trancavam a sala onde estávamos atendendo por isso estávamos aguardando do lado de fora. Chega uma mãe carregando o menino, relativamente grande mas muito magro, totalmente paralisado. Do lado dela, o guarda do hospital. Eles vêm direto para mim porque pareço vietnamita. Eu levanto, peço para ela sentar e explico que não falo a língua. Eles continuam falando, então saio atrás de alguém do hospital. Não encontro ninguém e ai entendi porque eles trancam todas as salas, porque todo mundo vai para casa. Volto e tento, educadamente, explicar o hospital está fechado e irá abrir depois. Eles continuam insistindo. O guardinha fica apontando a minha câmera, eu sem entender direto, falo que posso sim tirar uma foto (já tinha visto que crianças gostam de posar para a câmera, mas não me parecia o caso daquele menino). Tiro umas fotos e o guardinha começa a apontar o papel que a mulher tem na mão. Ai entendi. O hospital pede que as pessoas preencham um formulário e anexem uma foto. E ela não tinha a foto e queria que eu desse uma para ela. Tentei explicar que eu não podia dar uma foto mas que ela receberia uma cadeira de qualquer jeito. Quando falei não (que não podia dar a foto) a mulher quase veio as lágrimas.
Bom, no final acho que eles entenderam que eu não conseguia falar e que teriam que esperar alguém do hospital. E quando eles finalmente conseguiram entrar, eu fiquei olhando aquela mãe, carregando aquele menino e fiquei com o coração muito triste. Pelo menino, por aquela mãe. Ele ficou muito tempo aguardando os ajustes da cadeira, um alto grau de paralisia. Foi muito difícil.
Um dia chegou um grupo de idosos, a manhã era destinada aos adultos. Essa foi bem difícil segurar as lágrimas. Três deles sentaram juntos. Um deles ainda estava de pijama. Os três de meia, um deles com sacos plásticos enrolados nos pés. E eu não consegui deixar de pensar "eles não tem nem sapatos". E aquele pensamento ficou ecoando na minha cabeça. Eu sai da sala, precisei de algum tempo para voltar.
O Charles lutou na guerra do Vietnã. Um dia, esse homem grandão chega do meu lado e fala, totalmente emocionado "aquele homem é um vc" pergunto o que é um vc, ele me responde "um vietcon! Eu costumava odiar eles, eles mataram todos os meus amigos". Pergunto se ele está bem, ele me responde que sim, diz que o homem tem uma perna inutilizada por um tiro. E que ele não conseguiu sentir ódio, que ele havia pedido desculpas ao homem e que este o havia abraçado. Ele estava visivelmente emocionado.
Quando chegamos em Huén, o Charles encontrou uma senhora. Acho que ele estava um pouco em busca de algo. Ele mostrou através de sinais que era um ex combatente e a mulher, de alguma forma, mostrou para ele que o marido dela havia morrido na guerra. Ele pediu perdão. A mulher começou a chorar. Ele começou a chorar. Se abraçaram. Soluçaram. Foi bem bonito.




6 comentarios:
mana,
que lindo. Fiquei com o coracao apertado de ler sua historia.
Mil beijos
Oi, Ka
Foi tudo muito bom! Cadê vc? Saudades!
mana querida,
to no Nepal, ate marco. Cade voce no chat? Acho que vc esta no Brasil, nao?
beeeeiiiijooss
To sim! Aos poucos atualizando o blog. Eu to direto conectada. Aparece! To com muitas saudades
olha... lendo estas historias eu choro. Muito. Me emociona muito ver coracoes bons, almas boas. E vendo estas historias entendo o quanto a vida eh sagrada e deve ser preservada a qq custo. Uma vida pode tocar muitas outras. Eh como se salvando uma estivessemos salvando toda a humanidade....
Oi Clau, é isso mesmo, que palavras lindas as suas. Tem muito amor no ser humano, estranhamente, o amor não é um sentimento que vicia porque muita gente prefere cultivar outros sentimentos, muito deles ruins. Lá, eu vi a força do amor e reforça minha crença que esse é o sentimento básico da vida.
Saudades! E te amo de "montón".
Publicar un comentario